sexta-feira, 16 de setembro de 2016

CONSELHO

Quero dizer,
com todo respeito,
aos chatos de galocha
que andam por aí
reclamando de nós:

"Resistam!"

Porque ficaremos
e resistiremos
até que a última galocha
deixe a malfadada trincheira
e siga conosco
em busca do Sol.

Oração

Tudo que vi, me basta.
As coisas vis.
A vida casta.

Agradeço o brilho dado
e cada lágrima de dor.
E seja são e bem honrado,
maltrapilho ou deserdado,
ainda vivo em teu amor.

Perecível

Amor
que espera
até tarde

não morre,

mas passa
da validade.

Ouro de tolo

Caro, tão caro amor,
verás sim a riqueza
naquele belo lugar.

Conhecerás os nobres,
os dias em cobres,
as rimas tão pobres

e ao fim,
sonhará em voltar

(no tempo).


sexta-feira, 1 de abril de 2016

TRINTA

O medo é dos trinta
ou da vida passada
ou da morte mais perto
ou do uivo latente
de um sonho discreto,
que cedendo à liberdade
não quis mais se aquietar?

O medo não é do que foi,
mas sim do que nunca será.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Meditação sobre a morte

Vou para que outros venham.
Assim como muitos se foram
para que eu pudesse vir.

Morrer é ato nobre
para com a existência:
vai-se o ego,
fica a transcendência.

Morrer, em verdade, é ceder.
É se doar, sem freios,
ao mundo.

Morrer, em verdade, é viver.
Morrer é viver


em tudo.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

domingo, 9 de setembro de 2012

Noticiado

Alguém me cura
e sutura a ferida
provocada pela vida
acertada pela bala
que então quase perdida
desviou-se da viela
para cair no folhetim.

Em total desventura,
não sou mais senhor de mim.

sábado, 25 de agosto de 2012

Inveja

Teus olhos brilham tanto,
tu tens tanto encanto,
não sei de onde vem.

Queria eu um tanto
de todo esse teu canto,
e brilhar assim também.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Lágrima II

Eu morri
quando passaste
e fizeste que não viu.

Minha fala disfarçou,
meu sorriso bem tentou,
mas de um jeito pueril,
meu olhar tão amador,
feito um fraco jogador
insensato, me traiu.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Quando o destino não ajuda


Quando eu deveria ter partido?
Ela estava pensativa, lustrando a prata vintenária que tinha comprado nas núpcias. Após o primeiro escândalo não dava. Maria Lúcia tinha acabado de nascer. Talvez na época em que Adalberto jogava aquele jogo de cartas... Mas Sophia estava com problemas no colégio, não seria justo com a pobrezinha.
Agora cada uma das filhas tinha sua vida. E ela, vida nenhuma. Seria preciso buscar algo novo, fugir da repressão de anos e dos resquícios que Dona Maria, sua sogra, havia lhe deixado a pensar diariamente. A prata mal polida. As louças da janta mal colocadas...
Era hora de viver, enfim. De ver a liberdade pela primeira vez em tantos anos. Largar o ranço da boa esposa infeliz, que passa o dia se preparando e a noite inteira esperando.
Pegou a bolsa. Levantou-se com coragem. E deu o primeiro passo decidido em direção à porta. Passos lentos, como se a cada centímetro caíssem pelo chão seus medos e suas antigas raivas. Até Darlene, a cozinheira, podia ver de modo claro a carga libertária daquela pequena caminhada. Ao por a mão na maçaneta, contudo, o telefone começa a tocar alto e insistentemente. Um susto.
Dona Lourdes, seu Adalberto infartou.
Dez segundos de receio.
Ela abre a porta.
E corre para o hospital.