domingo, 5 de junho de 2011

Fins




Agora tinha acabado. Repensou todos aqueles fins tumultuados. Nas brigas sem causas, nos gritos, na raiva sem fim. Agora era de vez. Não houve sequer uma batida de porta. Apenas um ‘adeus’ rápido, pronunciado com entonação de ‘até logo’. Mas os dois sabiam que não se veriam mais. Ao observar o carro dele se afastando, os olhos dela ficaram mareados. Emanou certo arrependimento. Um medo: e se a saudade for infindável? No entanto, isso ocorreu por poucos segundos, pois logo pegou a chave de casa no bolso direito da calça, dando-se conta de que o jantar – e o mundo - a aguardavam. E isso pode parecer estranho, mas, uma vez tendo entrado em casa e batido o portão, nunca mais pensou nele.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Autoconhecimento


Cansei-me de ver isso.
Todos esses horários
e eternos compromissos.

No fim, deles sequer
levarão alguma lembrança.
Textos doutos, exaltados,
que resultam em cobrança.

Abraça-se o mundo todo.
Quer-se ele por inteiro.
Não me contenho e...

Parem!!!

Não se pode ter o mundo,
sem ter todo a ti primeiro.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Destempo



Não me esquivarei de mim,
pois em mim sou incrustado
como limo em pedras rasas,
como mofo em velhas casas,
como corpo suturado.

Mas tu não, tu podes partir.
Então fujas enquanto é tempo!
Deixe-me aqui, cativo, só,
alforriado em meu tormento.

Pois, para mim (como disseste),
qualquer chuva é tempestade;
cada onda é uma maldade.
E minh'aflição não enobrece.

Quero inteira a minha dor
de viver sobre este muro,
e ver-te assim, meu amor,
tão ofuscado pelo escuro,
faz de mim, vento infiel.

Vás, então, que - um dia - eu juro,
buscar-te-ei, bem mais maduro,
e te abrigarei sob o meu véu.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Curumim

Não se assustai,
pequeno guri.

Não me esqueci,
que, sozinho,
em algum lugar,
estás em espera.

E tu também,
nunca te esqueças
de minha jura tão sincera.

Tirar-lhe-ei dos negros vales
para tecer-lhe um belo canto.
Esquecerás dos velhos males
e dormirás sob o meu manto.

Dar-lhe-ei o meu amor,
que me domina tão latente,
aguardando que um dia,
sob a luz da calmaria
eu te encontre novamente.

domingo, 3 de abril de 2011

Delicado Desatino



Lua, que me roubaste a noite
e fizeste da festa, nós duas.

Que em repente chegaste
e tomaste conta da bela
que agora és tua.

Nua, que se insinua.

Crua cruel clarividente que nunca recua.

O torto canto que encanta
já tornou-se o meu mantra.

E sorrio por saber que um dia
outra vez serei tua.

Um dia, Lua.
Em que o Sol novamente há de nascer.

quinta-feira, 24 de março de 2011

O canto


Morena tão doce
que, quando avistei
seus olhos alertas,
tão puros, intensos
(tom de descoberta),
encantei-me e não pude,

deixar de pedir,
com meu jeito rude,
um breve encanto.

O primeiro canto.

Sem qualquer alarde,
a menina, ladina,
abriu-me um sorriso,
e com toque preciso
uma graça me deu.

Permitiu que seus lábios,
exatos, em cores,
curassem minhas dores
ao tocarem os meus.

segunda-feira, 14 de março de 2011

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

(Des)projeção



Quem é você
que não mais vem
em seu cavalo branco,
acalmar meu pranto,
e me tecer de novo
o mais belo canto
já ouvido nesses jardins?

Quem são esses soldados
(agora bem armados)
que não mais se alinham
ou sequer replicam por mim?

Nossos cetros enegreceram.
Suas flores-de-lis padeceram

na água turva
sob os meus pés.

Foi depois daquela chuva
que lhe tirou o viço,
e, feito um mal feitiço,
tornou-te quem tu és.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Úlcera




Porque os seus braços eram nus.
Porque os seus braços eram meus.

Porque eu gostava de ver
as marcas de expressão
que se formavam
em torno de seus lábios
quando eles
apertavam um cigarro.

E de quando soprava
a fumaça com força
e me sorria
um sorriso indelicado.

Gostava de suas mãos.
Jazia-me em seus laços.
Perdia-me em seu cheiro.
Dormia em seu abraço.

E pensava ter encontrado
a mais pura das verdades.

Por isso esse aperto em tudo,
que é a dor da minha saudade.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Certeza


O passado nos assombra.

Mas ouça, meu bem:
esses temidos cacos de vidro,
mesmo se juntados,
nunca serão cálice outra vez.

Recolho-os e os passo.
(Assim ganho mais espaço).

Eu sei,

podem até fazer desses cacos,
campos ricos e ensolarados,
rios límpidos e afortunados,
amores pueris e bem aventurados.

Para mim,
são só cacos.

Incapazes de voltar à mesa
ou de substituir a beleza
das flores que agora vêm;

da fé que me esteia
do néctar que me nutre
e da luz que me mantém.


Ombro amigo




Em meio a pedras,
numerosos buracos,
com pés calejados,
sangrando cansaço

e um velho temor,

avisto uma luz

que, como um casaco,
esquenta-me os lados;
dá-me forte abraço
e um pouco de amor.


Por sorte ou destino,
adeus desatinos,
angústias e afins.

Dizem que Deus,
ao ver-me assim,
pôs ao meu lado
um anjo sagrado
orando por mim.