terça-feira, 8 de novembro de 2011

Esperas




Onde estás tu, estranho,
que apareceste, assim,
de súbito, inesperado?

Que arrastaste, em ganho,
meu mundo, ao seu:
libertino e delicado.

Sonho casto, nossa dança.
O seu samba, finos seus.

Deram, a mim, esperança,
libertando sem fiança,
tediosos dias meus.

domingo, 6 de novembro de 2011

Recaída


Doces lágrimas de saudade
mostram algo ainda latente.
Toca-me, e, em um segundo,
vem-me o passado novamente.

O que estava escondido,
ao final, se libertou.

A casca de ira e indiferença,
diante da sua presença,
desfez-se em prol do amor.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Engesso



O sorriso daquela foto
nunca mais se repetiu.

Parece que o acaso sabia
que, cedo ou tarde, viria
um assombro repentino.
Insensato e sem aviso.

Ou então foi só a foto,
que, buscando a perfeição,
levou pra si o teu sorriso.

Sono


Eu queria que este momento

fosse uma pintura

em tela, a óleo.


E eu moraria nela para sempre.

domingo, 23 de outubro de 2011

Purgatório


O sereno e puro amor
que sentes ao me ver
é somente brisa leve
que se vai quando me vou.

Suas palavras são vazias.
Minha vivida alma sente.
Os lábios sabem enganar,
mas as mãos logo desmentem.

Eu sei quando não me amam.
Mas vejo que muito me quer.
Exijo à loucura, então,
que lhe tome enquanto puder.

E em agonia e aceitação,
vou esperando a lucidez,
que, justa e impassível,
fará tu partir de vez.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Labirinto II



(O levantar)

Agora vejo como antes não via.
Não me pareces mais tão sombria.

Vertigem,
eu, quando virgem,
não entendia.

Põe a pesar meus problemas,
massacra sem dó os dilemas
que me arrastam em suas batalhas.

Faz-me descer pelos cantos
mas só para ver se levanto
em busca de novas muralhas.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Labirinto


(A queda)

Em instantes,
negros pontos,
alguns brilhantes,
me tomam a vista.

Pendo aos dois lados da pista.

Meu velho desequilíbrio,
eu, ébrio, à ti não minto:
és já parte de meu eterno labirinto.

Este que cerca e derruba.
Somatiza e desnuda.
Põe-me sempre adoecida.

E caio de novo em desgosto da vida.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Dia de Sol



Não se vá,
pequena menina;
que o dourado
dos seus cachos
sob o Sol
traz-me o gosto
do mais doce dos méis.

E o contraste
desses cachos
com o céu,
(cenário anil),
cega minha alma
e qualquer razão que,
por ventura,
em mim já existiu.

Desejo íntimo


O céu em crepúsculo.
Negros montes sem vida.
Estrada disforme e sofrida.
E sombras em conflito.

Constato, de pronto:
o fim já foi escrito.

A rotina me engole e me suga.
E o meu desejo de fuga
já não aparece há algum tempo.

Sinto que perdi o controle
de um viver entediante
que agora já não posso
(e nem sei) levar adiante.

Só sinto.
Finjo.
Minto.
Invento.
Procuro.
Espanto
o tormento,
o pranto,
a vontade de partir
de vez e com sucesso.

E extirpar todo esse tempo
vivido em excesso.

Amor e tempos




Quisera ser luz a me guiar
no tão árduo caminho.

Ao final das noites,
esperava-me sozinho,
em silêncio.

Silêncio,
atinado,
gritando
precisamente
as minhas
fraquezas.

Tentavas me avisar
de minhas tristezas.

Mas era dia.
Era verão.
E o barulho do mar...
Ah, o barulho do mar,
como este era forte e vívido;
como as canções tão alegres e
vibrantes me proibiram de lhe ouvir.

Como fui feliz ali...

Mas como vencidos guerreiros,
foram-se dezembros, natais e fevereiros.

E hoje, no frio das noites invernais,
rendo-me àquele que a mim ainda se rende,
e que reza (ainda e novamente)
pelo fim dos carnavais.

domingo, 7 de agosto de 2011

Caminhos



Fala-se em sonhos.
Trilhar caminhos.
Traçar estradas.
Formar seus ninhos.

Sair de casa.
Ficar sozinho.
Criar meninas,
(lugar ao Sol).

E então depois
uns dois meninos
pra levar ao futebol.

Já tenho netos.
Alguns formados.
E uns dois filhos,
divorciados.

E entre a dama e
o baralho, num
dia desses, que
sempre é sábado,
um breve olhar
para o passado

e me vem o mais cruel
(mas não raro)
questionamento:

deveria eu ter desviado
esse tão certo caminho
em algum certo momento?