quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Jardins III


(A dúvida)

Podes ir, não faz mal.
Tua ausência é banal.

E a praça, já com flores,
já ganhou algumas cores
que meus olhos,
antes tristes,
não podiam enxergar.

Eu, sozinho, vendo os pombos,
já depois de tantos tombos,
finalmente, decadente,
me coloco a perguntar:

se os pássaros já cantam,
se as moças já me encantam,
e se a vida já não é
(e nem será) tão ruim assim,

quem sabe eu não planto
uma flor em outro canto
que sorria todo dia
e pertença só a mim?

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Pequena anotação


Ora, como reclamas

de toda minha atitude.
Falta-me um sonho inteiro,
sobram-me pesadelos,
falta-me um jeito rude.

Saibas, porém, que
se para me escrever,
for preciso padecer,
me ponho à disposição
e faço o que a dor quiser,
pois mesmo do mal me escondendo,
verei o sangue escorrendo
e a privação não vale
o que a poesia é.

domingo, 3 de julho de 2011

Luxúria

Pedra branca, lisa e fria

que sustenta nossa dança,

cujo frio arrepia,

e a dureza nos descansa.


Sobre ela, nos amamos.

Jeito leve, intenso e frágil.

Sobre ela o fogo vence,

nossos ventres se pertencem,

e casamos nossos lábios.

domingo, 5 de junho de 2011

Jardins II


(O Contraste)

Suas rosas brotando lá fora
ignoram sua longa ausência.
Uma brisa gelada adentra
e reforça a grave carência.

A ferrugem, como avisei,
arruinou o ferro barato.
O mofo (puro descuido)
já vestiu os velhos retratos.

Foi numa noite, dessas frias,
que sumiste por esses matos,
deixando na nossa história
(e nas tábuas) triste hiato.

Agora tudo são traças.
Finado tempo de graças.

E a grande janela, impassível,
escancara sem dó o contraste:
lá fora o pomar que plantou,
aqui dentro o jardim que podaste.

Jardins


(O Apelo)

Pensas em teus jardins
tão logo brota no céu
a mais pura e linda cor.

Mas, obstinada, eu imploro:
não se vá, meu amor!
Pois, te juro, lá do fundo:
eu também sou uma flor!

A mais frágil e seca escultura
do lado escuro do seu jardim.

Então vens, regues a mim!

Dá-me pleno o teu sulco.
Encerre logo este luto.
E não impeça que minhas
vivas cores se expressem.

Pois pétalas murchas, sabemos,
teus raros agrados desconhecem.

Despropósito



Fico sozinho à noite pra ver se consigo me encontrar. Mas nunca me livro do mundo. Ele sempre dá um jeito de me alcançar. Não adianta fechar as janelas e trancar as portas. Ele entra pelas frestas; escorre pelo telhado e chega a mim de uma forma ou de outra. Mas mesmo assim o ignoro e finjo que não o vejo.


Eu sei que ele vai desistir

mais cedo ou mais tarde.

Fins




Agora tinha acabado. Repensou todos aqueles fins tumultuados. Nas brigas sem causas, nos gritos, na raiva sem fim. Agora era de vez. Não houve sequer uma batida de porta. Apenas um ‘adeus’ rápido, pronunciado com entonação de ‘até logo’. Mas os dois sabiam que não se veriam mais. Ao observar o carro dele se afastando, os olhos dela ficaram mareados. Emanou certo arrependimento. Um medo: e se a saudade for infindável? No entanto, isso ocorreu por poucos segundos, pois logo pegou a chave de casa no bolso direito da calça, dando-se conta de que o jantar – e o mundo - a aguardavam. E isso pode parecer estranho, mas, uma vez tendo entrado em casa e batido o portão, nunca mais pensou nele.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Autoconhecimento


Cansei-me de ver isso.
Todos esses horários
e eternos compromissos.

No fim, deles sequer
levarão alguma lembrança.
Textos doutos, exaltados,
que resultam em cobrança.

Abraça-se o mundo todo.
Quer-se ele por inteiro.
Não me contenho e...

Parem!!!

Não se pode ter o mundo,
sem ter todo a ti primeiro.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Destempo



Não me esquivarei de mim,
pois em mim sou incrustado
como limo em pedras rasas,
como mofo em velhas casas,
como corpo suturado.

Mas tu não, tu podes partir.
Então fujas enquanto é tempo!
Deixe-me aqui, cativo, só,
alforriado em meu tormento.

Pois, para mim (como disseste),
qualquer chuva é tempestade;
cada onda é uma maldade.
E minh'aflição não enobrece.

Quero inteira a minha dor
de viver sobre este muro,
e ver-te assim, meu amor,
tão ofuscado pelo escuro,
faz de mim, vento infiel.

Vás, então, que - um dia - eu juro,
buscar-te-ei, bem mais maduro,
e te abrigarei sob o meu véu.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Curumim

Não se assustai,
pequeno guri.

Não me esqueci,
que, sozinho,
em algum lugar,
estás em espera.

E tu também,
nunca te esqueças
de minha jura tão sincera.

Tirar-lhe-ei dos negros vales
para tecer-lhe um belo canto.
Esquecerás dos velhos males
e dormirás sob o meu manto.

Dar-lhe-ei o meu amor,
que me domina tão latente,
aguardando que um dia,
sob a luz da calmaria
eu te encontre novamente.

domingo, 3 de abril de 2011

Delicado Desatino



Lua, que me roubaste a noite
e fizeste da festa, nós duas.

Que em repente chegaste
e tomaste conta da bela
que agora és tua.

Nua, que se insinua.

Crua cruel clarividente que nunca recua.

O torto canto que encanta
já tornou-se o meu mantra.

E sorrio por saber que um dia
outra vez serei tua.

Um dia, Lua.
Em que o Sol novamente há de nascer.