quarta-feira, 10 de março de 2010

Costumes da Terra I



(A urgência)

Menina dos trinta,
sai de casa logo.
Casa logo.
Dê casa logo.
Dê em casa logo.
Dê jeito de casá-lo
(e amá-lo, talvez).

Moça sozinha na vida
não tem esperança.
Sem sonho, amparo.
Sem pão nem criança.

E na praça ainda se atrevem:

“Cartório logo.
Casório breve.
Barriga Cheia.
Cabeça leve.”


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Egos


Não querem morrer.
Procuram, o dia todo,
pela eternidade.

E, para isso,
enxugam valores,
ferem a própria vida
e sacrificam a verdade.

Dão-se por inteiro.
E insistem para que seus sacrifícios
mudem a história.

Para a imortalidade, clássica receita:
doar a própria vida
em troca de memória.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Janeiro



Deu-me livros e cartas,
numa caixa.
A mim, uma caixa
com seu cheiro.


A caixa acha
sentidos sofridos
perdidos no cotidiano:
logo me lembro que
ainda te amo.


A caixa me taxa:
"baixa!",
"covarde!".
A caixa me arde.


Não tarde,
o cheiro enfraquece
e, mais ainda, adoecem
minhas já abertas feridas.
Meus já mortos canteiros.


No fim, o cheiro se vai;
e com ele, minha vida.
Nesse quente (mas tão frio)
mês de janeiro.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Saudade dos oito anos




Escurece cada vez mais cedo.
As meninas de saias rodadas, na esquina,
não têm quinze,
têm doze.

E os pequenos heróis
(tão frágeis)
com armas de brinquedo.
Ou armas como brinquedo.

Escurece cada vez mais cedo.
Morte.
Dor.
Sexo.
Medo

do avanço,
do sorriso,
do descanso.

Medo de gente.
Medo da gente.
Do que nos tornamos.
Do decadente.

E no fim dessa longa noite,
todos querem
(por um instante, ao menos)
se iluminar
novamente.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Memórias

Eu perdi alguns de meus dias. Se me perguntarem o que fiz nesses dias, o que aconteceu, eu nunca conseguirei responder. Minha memória me trai. Ela vai embora discretamente, sem que eu perceba. De repente, eu me vejo sem ela, perdida, sabendo que nunca mais voltará, por mais que me tentem trazê-la novamente. Por mais que ele a traga para mim inteiramente, em mínimos detalhes.

Eu conheci o João quando era jovem, bem jovem. Quando o corpo era casto e ansioso de amor. Ele me falava coisas lindas, as quais não consigo me lembrar agora. Mas sei que eram belas, senão eu não teria me apaixonado. Às vezes ele ainda me escreve cartas, trazendo as poesias e as músicas prometidas há anos atrás. São todas lindas, mas sequer lembro-me de ter pedido-as, sequer me lembro da existência delas. Ou das demais promessas que ele insiste em cumprir.

E me vêm em formas de cartas e canções as Pasárgadas, os sonetos, Brigite Bardot, Vinicius de Moraes, Neruda, o pequeno príncipe e até Ismália fazendo sua escolha diante do mar. Talvez se eu me lembrasse dele da mesma forma como ele se lembra de mim... se eu soubesse que ele prefere torta de morango a bolo de laranja ou doce de leite à goiabada, tudo ficaria mais fácil. Eu retribuiria à altura todo aquele amor. Eu reiteraria cada declaração de paixão eterna que fiz com meus dezessete anos; enxergaria o fundo de sua alma e conseguiria lhe dar tudo o que lhe falta; mataria com um gesto a sua sede de carinho e preencheria o seu imenso vazio, que se formou quando me mudei por causa da guerra. Mas sequer me lembro das coisas que eu falava à época. Faz anos. O que me restou foi apenas uma carta, e eu acho que joguei fora na reforma do ano passado. As nossas músicas nem tocam mais no rádio e, se tocam, já não as reconheço mais, meus ouvidos já não são tão bons como antes. Mas naqueles olhos negros algo me toca, algo me impede de revelar a verdade, de atirar na cara todo esse desconhecimento, toda essa ignorância. Talvez seja o medo de jogar fora um amor de vida inteira, mesmo que ele seja falso.

O fato é que, de repente, o João começou a me atrair; não pelas cobranças do antigo amor jovem, mas pela tamanha certeza e esperança desse senhor, que age ignorando tudo o que o mundo tem de ruim. Não pelas músicas que ele vem me dedicar, mas sim pelas mãos pesadas que se suavizam tão logo me acariciam a face. A partir do antigo, veio-me essa nova paixão; agora sem medo, impedimentos, cobranças ou qualquer direção. Porém, ele insiste na saudade.

E o que me resta é aceitar esse eterno amor imposto; é esconder a estranheza do meu rosto e fingir que também me afogo em nostalgia. Resta-me amar esse jovem crescido, ainda tão inocente, como se o amor não tivesse morrido, decomposto-se e, então, nascido novamente.

sábado, 19 de setembro de 2009

Conversa com Deus

Ó meu Deus, ó minha fonte,
será que realmente és a ponte
para a felicidade eu encontrar?

Me disseram: ‘é o Rei’,
e de tudo eu lhe dei,
para poder um dia te olhar.

Que me tocaste, eu permiti.
Nunca chegastes e desisti.
E continuo, cética, a esperar.

Mas se és o Rei dos mundos,
se é teu todo o poder,
por que deixas este mundo até o fim se corroer?

Se criaste a noite e o dia,
por que permite tais orgias,
e deixa o mundo apodrecer?

Sei, inventamos a dor e o imoral.
Mas absolva o capeta,
pois ao contrário do inferno,
o ser humano é real.

E se filhos de ti somos,
quem nos carregou na barriga?
Desça da tua nobre casa,
e a nós, pobres, diga.
Não nos deixe outra vez a esperar.

Pois se o pai só observa e castiga,
descobrirei quem é a mãe
para poder me consolar.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Antevisões


Pela terceira vez entro no quarto. Andei pela casa o dia inteiro, criando diferentes caminhos. Procurando. Procurando. Sem mesmo ter a intenção de encontrar. As revistas estão no lugar; os chinelos, espalhados. E você não está lá. Então nem adianta essa maquiagem toda. É melhor eu fechar as janelas e continuar destoando do mundo nessa tarde de sábado.

Vou lavando a louça e molhando o jardim e cuidando da casa mesmo não me importando se a pia está suja ou se a grama já cresceu. De que adianta a piscina azul? Ela não pode te trazer de volta!

E então eu sento na cama e penso que aquela conversa pode ter sido mesmo a última e que a sensação de que ainda existe algo entre nós pode acabar a qualquer momento, quando você encontrar uma moça bonita no metrô ou mesmo perto de onde você mora e, a partir de então, vai lembrar-se de mim e ficar triste por um instante, até se dar conta de que tem que pegar o seu filho mais novo no futebol e guardar as compras que ela fez, mas teve que sair logo porque estava atrasada para ir ao cabeleireiro, que pode até ser o mesmo que eu já fui um dia, mas que não freqüento mais por ter me mudado para o outro lado do mundo fugindo das lembranças que me tomam a consciência desde hoje e que sei que não vão sumir mais.


(E pensar que te mandei embora por falta de amor).

domingo, 16 de agosto de 2009

Os dias de glória



A doçura da glória
e sua aparente leveza
submergem o mundo
e põe, sob os teus pés,
sensível fortaleza.

Há um atinado alívio,
que surge diante desse mundo
tão aberto e afim.

Podemos partir.
E fazê-lo eterno.

Ou ficar.
E gozar lentamente o seu fim.

domingo, 2 de agosto de 2009

A sujeira e a verdade




A crosta de terra e sujeira
que se formou nos pés
daquela Igreja
lembram-me minha vida.

Envolve as paredes até ficarem pardas.
Faz as estátuas sobreviverem frias e amargas.
E estas,
com o rosto – e o humor – enegrecido
passam a contar vantagens com seus sacrifícios doídos.

Essa crosta revela o tempo,
esconde a boa vontade.
Endurece a alma dos mais nobres homens
e ofusca a mais iluminada verdade.

Mata, não só a leveza,
mas a jovialidade, a resignação e a benevolência.

Assim também sou eu.
Sujam-me tantos fatos, atos e “poréns”,
que já não sei qual é a minha essência.